31.12.16

OPINIÃO: O céu e o inferno


Despedimo-nos de 2016 varrendo para debaixo do tapete o que correu mal, preservando o que correu bem e esperando que 2017 seja um bocadinho melhor. O problema é que o lixo de más memórias coletivas, no sentido lato da Humanidade, do ano que agora finda é muito e a céu aberto. E o céu está carregado de inferno.
Vamos aos factos do que por aí se arrasta. Sem previsões. Porque nada é o que parece. E, quando damos conta, o que parecia é que era. Dentro de portas, vamos esperar que o que se passa fora de portas nos ajude.
O crescimento da economia. A redução do desemprego. O investimento público. A venda do Novo Banco. A recapitalização da Caixa Geral de Depósitos. Os lesados do BES. A austeridade, com ou sem página virada. O controlo do défice (o orçamental e não o do conhecimento da mensagem de Natal do primeiro-ministro). Não são precisos grandes dotes de adivinhação para perceber que não nos livraremos tão cedo das marcas dos últimos anos.
Não basta contar com as previsões otimistas do Governo, ou com o otimismo político do primeiro-ministro, para que os números e as intenções, em tudo mais favoráveis do que as previsões internas e externas, corram de feição. Nem com a manutenção das cativações orçamentais nos serviços públicos, cujas consequências do desinvestimento dos últimos anos de aperto estão à vista de todos, sobretudo na Educação e na Saúde.
A dúvida é, portanto, económica e não política. E passa por perceber as artes que farão do controlo do défice uma bandeira e do investimento público uma alavanca para o crescimento. Porque politicamente António Costa parece seguro da vontade dos parceiros da Esquerda de confiarem na tese do mal o menos. E o mal vem da Direita. Como está na Direita, sobretudo em Pedro Passos Coelho, o ónus de sobreviver às eleições autárquicas, a um partido que conspira pelo poder e a previsões catastrofistas que levam o país para o abismo.
Somos pouco dados a isso. E tendemos a olhar mais para o umbigo. A achar que o que se passa no vizinho não é mal que venha a caminho. Mas vem. O pior vem de fora. E de fora só vêm interrogações. A imprevisibilidade das políticas do próximo presidente dos Estados Unidos. A imprevisibilidade do presidente russo e da sua tentação sobre os outrora territórios da União Soviética (cujo fim faz agora 25 anos), mas também na influência que exerce em Itália através do Movimento 5 Estrelas, na Holanda ou em França, onde a Televisão Russa abriu um canal e a líder da extrema-direita Marine Le Pen confessa grande proximidade com Putin. Ou ainda nas eleições alemãs.
A imprevisibilidade soa em todos os alarmes da construção europeia. O ano que chega pode deixar saudades de 2016. Vamos esperar que não.
Domingos de Andrade in “Jornal de Notícias” – 31/12/2016
** Cartoon de Henrique Monteiro in http://hewnricartoon.blogs.sapo.pt