27.12.16

OPINIÃO: No caminho das pedras

Partem na direção da Síria, sentido inverso ao caminho do êxodo. Querem sentir o mesmo solo que milhares pisaram nos últimos anos. Em fuga. Três mil pessoas, a pé, de Berlim a Damasco, quinze quilómetros por dia. A exorcizar a culpa, que não nos pertence, mas afinal temos todos um pouco. Outros fizeram o mesmo percurso. Sem culpa, tolhidos pela violência. Sozinhos, deixando para trás uma vida, a mãe, um irmão. Tudo. Crianças andaram milhares de quilómetros. Sós. Forçadas a abandonar a casa, a escola, os amigos. A guerra expulsou-as. Mohammed Hussein, de 16 anos, é um dos milhares de adolescentes que alcançaram sozinhos a Europa. A decisão não lhe pertenceu, a sua família um dia disse-lhe. "Aqui não há qualquer perspetiva. É melhor que vás", relata Ute Schaeffer, escritora e jornalista, em "Simplesmente ir embora". O livro conta a história amarga de doze adolescentes que chegaram à Alemanha. Mohammed Hussein foi um desses viageiros solitários, acossados.
Agora é um grupo de adultos, de diferentes nacionalidades, que decidiu fazer o caminho inverso. Três mil pessoas, e uma bandeira branca, vão caminhar três mil quilómetros em direção à Síria. Pedem paz para que os 12 milhões de refugiados, um dia, tenham condições de voltar. Partem simbolicamente do antigo aeroporto de Berlim-Tempelhof, o maior campo de refugiados da Alemanha.
Caminham para lembrar os 312 mil mortos na longa e complexa guerra da Síria: 149 mil das vítimas são civis e, entre estas, estão 16 mil crianças. São números divulgados pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos, citado pelo jornal espanhol "El País".
Os números, frios, não iludem a violência da guerra civil. Cinquenta e seis mil pessoas foram vítimas de disparos, 60 mil pereceram durante bombardeamentos; outros, mais de 20 mil, terão sido vítimas de execuções e de tortura - a mais vil expressão da um conflito entre homens, que foram concidadãos e partilharam quase tudo.
Da Síria para onde caminham estes homens e mulheres a denunciar o indizível, chegam sinais de esperança. Neste Natal, a 25 de dezembro, foi possível rezar numa igreja da Alepo, cidade que esteve sitiada pelos rebeldes opositores ao regime de Assad. Nos últimos dias, a Cruz Vermelha retirou milhares de pessoas: Alepo, símbolo dos horrores da guerra, faz-se símbolo de esperança. A paz, essa, continua por encontrar o caminho certo.
Paula Ferreira in "Jornal de Notícias" - 27/12/2016