22.12.16

OPINIÃO: À Lagardère e outras notas

É mesmo assim, sempre a somar. Como é difícil olhar para o currículo dos últimos três directores-gerais do Fundo Monetário Internacional (FMI) sem repensar sobre o crime e sobre como ele compensa. Muito para além de qualquer jogo de coincidências, todos apresentam uma insólita nota biográfica comum, plenos e juntos como cartão de visita à liturgia da especulação financeira moderna. Rodrigo Rato, Strauss-Kahn e Christine Lagarde: nenhum escapa a processos com a justiça e expulsões técnicas, suspeitas e condenações, reconduções ou diferentes formas de perdão por negligência ou esquecimento. Assim vai o forte mundial da regulação, aquele que chamámos para que nos ajudasse a regular as contas e a reestruturar a economia. Um Fundo Monetário supostamente criado para promover a equidade económica mas que, pelo menos há 12 anos, continua a criar um padrão de saída limpa para as piores estirpes de poluição financeira em liberdade.
Nota de nojo, portanto. O FMI reafirmou a confiança em Lagarde após a sentença do Tribunal de Justiça da República Francesa que culpabilizou a sua ex-ministra da Finanças por "séria negligência" no caso de indemnização estatal pela venda da Adidas a um banco (semi) público em 2008. Tudo vai quando tudo é possível, mesmo quando estão em causa 403 milhões de euros pelo desvio de fundos públicos e tráfico de cumplicidades para o bolso do empresário Bernard Tapie em aparente troca directa pelo suporte financeiro da campanha do seu amigo Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais de 2007. Depois, junta-se um coro de novos espantados quando há quem defenda que tudo tem de vir abaixo para se poder construir algo de verdadeiramente novo. Todos os ditadores, todos os novos populistas, todos os demagogos contemporâneos esfregam as mãos quando a democracia que temos assina a sua sentença de morte com vontade própria. Quem precisa de inimigos quando é o monstro que sai pela boca?
Em bom rigor, surpreendente só a nota de culpa. A coragem manifesta-se por formas ínvias e, tantas vezes, não deixa de lamber a mão do dono enquanto ladra. A maior nota de insólito encontra-se na explicação do tribunal francês para a inexistência de punição a Christine Lagarde de forma a que nenhuma condenação conste do seu cadastro criminal. "A decisão do tribunal é como a sombra do punhal", escrevia José Afonso. Tomem nota: a actual e recém-reeleita directora-geral do FMI foi poupada à condenação tendo em conta - e cito - a sua "personalidade e reputação" e porque estava "ocupada, na altura, com a crise económica global". Agora, sem rir.
Miguel Guedes in "Jornal de Notícias" - 21/12/2016