4.12.16

OPINIÃO: #jinglebad

E eis que desaguamos naquela altura do ano em que seres humanos que julgávamos ponderados e justos se transformam em chacais salivantes com cartões de crédito pendendo dos caninos. O Natal tem tantas coisas boas que só por falta de fé pode produzir tantas criaturas más. Seja no trânsito, em que há uma maior pulsão para o confronto entre pinturas metalizadas e um notório acréscimo no uso de apêndices verbais pouco ortodoxos; seja na fila do Pingo Doce, da Primark ou da Intimissimi. Na verdade, seja onde for. A quadra da fraternidade e do amor galopante pelo próximo é, paradoxalmente, a época do ano em que se festeja com maior empenho a impaciência. Ninguém admite esperar por nada. O fulgor consumista degenera num doentio estádio de competição: não basta ter poder aquisitivo. Há que comprar primeiro do que os outros. Há que comprar melhor. Nem renas, nem Menino Jesus, nem rabanadas. Devagar, devagarinho, estamos a transformar o Natal num campeonato de luzes intermitentes disputado por gente cega. De desejo.

Pedro Ivo Carvalho in "Jornal de Notícias" - 3/12/2016