3.12.16

OPINIÃO: Entre marido e mulher o quê?

 Já sei: "Ninguém mete a colher". Pense de novo. Porque foi exatamente por alguém ter metido a colher entre Adelaide e o marido que um longo calvário de agressões e perseguições acabou. Porque houve uma vizinha que se cansou dos gritos que lhe entravam pela frincha da porta à hora do jantar e chamou as autoridades. Adelaide foi brutalizada durante anos. À frente dos filhos. Ainda antes de estes nascerem. Estava grávida de três meses quando levou o primeiro estalo. Tinha pouco mais de 18 anos.
Ora, nesse dia em que a tal vizinha a salvou - e foi preciso reunir coragem para fazê-lo num meio pequeno que olhava de soslaio para tudo -, Adelaide foi levada para o hospital. Só nesse momento é que os pais perceberam o que tinham sido aqueles dez anos de casamento. E talvez aí tenham entendido por que razão Adelaide andava de manga comprida no verão. Que era vergonha e não frio. E o que fizeram os pais de Adelaide? Se vai dizer ajudaram-na, pense de novo. Primeiro, aconselharam-na a engolir o inferno. "O casamento por vezes é uma cruz", foram as palavras da mãe. Da avó dos miúdos que cresceram naquilo.
Mas Adelaide fugiu de casa do marido para casa dos criadores. Um meio-termo num beco sem saída. Dois anos voaram. Por 43 vezes apresentou queixa contra o homem com quem já não morava. Agrediu-a na rua, no trabalho, atropelou-a. Adelaide foi saco de boxe até o animal ser preso. Um dos poucos que cumpriram pena por este tipo de crime. Em 2015, apenas 8% dos agressores foram condenados. Mais de metade (60%) dos casos foram arquivados. Mas isto é estatística fria. Voltemos à história.
O marido (força de expressão) de Adelaide saiu da prisão ao fim de três anos, por bom comportamento. Durante esse período, ficou longe dela, mas não dos filhos. Porque houve um juiz que achou oportuno submeter as crianças ao convívio semanal do agressor, decretando visitas na cadeia. "Digam à vossa mãe que, no dia em que sair daqui, a primeira coisa que vou fazer é ir atrás dela". E assim foi.

Adelaide entrou na primeira casa-abrigo pouco tempo depois. Largou tudo. Nem para comprar pão podia sair do esconderijo. Ainda assim, continuou a acreditar no sistema judicial. E requisitou apoio judiciário à Segurança Social para agir novamente contra o marido. Parece piada, mas não é: a advogada que lhe designaram era a mesmo do agressor. Adelaide mudou de vida. Outra vez. Numa nova casa-abrigo.
A justiça acabaria por funcionar. E o homem foi de novo condenado. Mas nunca compareceu ao julgamento. O mandado emitido há dois anos pela polícia não passou de um papel. Paradeiro incerto. Adelaide tem 33 anos. Encontrou um emprego. E uma casa nova. Não é feliz porque ainda vive com medo que o homem que nunca irá esquecer regresse um dia para a fazer lembrar. Por isso, pense nisto: esse homem, ou outro agressor da mesma espécie, pode muito bem ser seu vizinho. Pela Adelaide e por todas as outras, não aumente o volume do televisor quando ouvir os gritos de uma mulher na casa ao lado. Pegue no telefone e meta a colher.

Pedro Ivo Carvalho in "Jornal de Notícias"