19.11.16

OPINIÃO: Ódio militar

Nós não matamos os nossos homens em tempos de paz. Nem em tempo de guerra. Nós não mandamos os nossos homens para a morgue. Mesmo sabendo que a vida de um militar está sempre presa por um fio.
Está no imaginário da sua missão a defesa da pátria e o sacrifício dos interesses individuais em favor do coletivo. E o coletivo somos nós. De um militar não se espera que ganhe calo na barriga. Espera-se porte, os rigores da ética e da honra, "aceitando, se necessário com sacrifício da própria vida, os riscos decorrentes das suas missões de serviço". Está escrito, preto no branco, no Regulamento.
Findo o Serviço Militar Obrigatório de má memória, eventualmente justificável num tempo e numa circunstância, ingressar na carreira é perceber que o tamanho da missão pode ser o tamanho da vida. E esta condição deve, a nós civis, merecer o máximo respeito. Abraçar uma especialidade tão dura como a de ser comando, dura na defesa do orgulho, na privação, no sofrimento físico e psicológico, é saber que o caminho vai ser sempre árduo. Num hipotético cenário de guerra, não nos darão água, nem haverá ar condicionado para combater as temperaturas inclementes.
Mas uma coisa é ter consciência de que as tropas especiais, comandos, fuzileiros, paraquedistas, representam um patamar de esforço, de coragem moral e física superiores. Outra é conviver com atos que firam a dignidade da pessoa humana. Uma coisa é o esforço físico, outra é a humilhação.
É inadmissível, por isso, pactuar com o que aconteceu durante aqueles dias infernais de setembro, que levaram à morte de dois recrutas e ao internamento de vinte durante a instrução do 127.º Curso de Comandos.
Não sabemos se o que moveu a arrogância e o inchaço dos galões daqueles superiores que deveriam instruir e não destruir foi, como refere a procuradora do Ministério Público que deduziu a acusação, o "ódio patológico aos instruendos". O caso não foi julgado, por muito que a tentação dos públicos seja fazer as sentenças em praça pública. Mas sabemos que houve duas mortes. Que havia responsáveis superiores. E que os testemunhos de privação a que aqueles homens foram sujeitos são dramáticos.
Nesta profissão, ou ofício de alto risco, em que na fase de instrução se pretende uma superação maior do que a preparação física o permite, compete aos instrutores e aos oficiais velarem pelas boas condições dos seus instruendos. Se não podemos confiar neles, em quem podemos confiar?
A instituição militar tem também mecanismos internos de inspeção e vigilância para monitorizar cada fase de instrução. Compete-lhe verificar se os mecanismos existem, se estão a ser cumpridos e se são adequados.
As Forças Armadas e a Administração Pública são dois pilares essenciais de um Estado democrático. Se não confiamos neles, é a essência do próprio Estado que vacila.

Domingos de Andrade in “Jornal de Notícias” – 19/11/2016