10.11.16

OPINIÃO: O burburinho da Caixa

É a grande trapalhada do Governo de António Costa. E não devia existir sequer a possibilidade de a Caixa Geral de Depósitos dar azo a semelhante burburinho. Assim, a Caixa não sai do foco da atualidade: pelas piores razões. Como se não bastassem as dúvidas, nunca cabalmente dissipadas, sobre a sua sustentabilidade financeira, a nomeação do novo Conselho de Administração trouxe o banco para a discussão pública e não, como já se disse, pelos melhores motivos.
António Costa, por muito que queira afastar-se da polémica, parece ter errado o alvo. E, agora, é um pouco tarde para corrigir o tiro. Uma Administração muito bem paga, para não haver desculpas de má gestão (o argumento pertence ao ministro das Finanças), está a fazer tão mal à Caixa como muito dos administradores não tão bem pagos - que por lá passaram ao abrigo de interesses e jogadas políticas.
Parece evidente que António Domingues, presidente do Conselho de Administração do banco público, teve garantias do Governo de ficar isento da obrigação democrática de apresentar a sua declaração de rendimentos. Não há outra forma de explicar a obstinação do gestor e de toda a sua equipa. Mas no ponto em que situação chegou, a Domingues e companhia restam duas opções: ou entregam a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional, como qualquer detentor de cargo público, ou mantêm a decisão de omitir esses documentos e abandonam os cargos.
Se dúvidas houvesse, o presidente da República mostrou de forma clara o caminho aos gestores da Caixa. Marcelo Rebelo de Sousa espera, como a maioria dos portugueses de bom senso, que o banco público chegue a bom porto, ainda que para isso o Estado tenha de injetar 2,7 mil milhões de euros. Mas isso já se sabia e foi, inclusive, aprovado por Bruxelas. Além disso, Marcelo pede "um sólido consenso nacional em torno da gestão, consenso esse abrangendo, em especial, a necessidade de transparência, que permita comparar rendimentos e património à partida e à chegada, isto é, no início e no termo do mandato, com a formalização perante o Tribunal Constitucional, imposta pela administração do dinheiro público". De que estão à espera os gestores da Caixa para agir em conformidade? Quem lhes garantiu que ficariam à margem das regras da transparência? Uma confusão das grandes, inconcebível em qualquer circunstância, mais grave ainda quando se trata de um gigante como a Caixa Geral de Depósitos, que tantas dúvidas suscita aos portugueses.
Paula Ferreira in "Jornal de Notícias"