23.10.16

OPINIÃO: Uma voz contra o medo

"O perigo anda a rondar", queixou-se, por estes dias, um dos moradores de uma das povoações onde a GNR prossegue as buscas pelo homem que é suspeito de ter morto duas pessoas e ferido outras duas gravemente, em Aguiar da Beira. Já "habituadas aos lobos e aos javalis", as pessoas de Arouca, primeiro, e as de Vila Real, agora, têm um novo vulto a temer, na figura de um homem que parece não hesitar em disparar para poder fugir.
A violência dos ataques que protagonizou, o largo mapa que já percorreu na sua fuga e os onze dias que ela já leva são razões bastantes para uma população alargada do Norte ter motivos sustentados para recear pela sua segurança. Perante este quadro, a ideia de descoordenação das forças policiais é como gasolina numa fogueira que todos querem ver apagada o mais depressa possível com a captura do foragido.
É óbvio que a GNR e a PJ não funcionam exatamente sob o mesmo diapasão. Uma é uma polícia de proximidade, mais preparada para fazer "batidas" na busca do fugitivo do que para montar uma emboscada e ter a paciência de esperar que o fugitivo caia nela, como será mais natural para uma força de investigação como a Judiciária. Se a isto juntarmos que uma das vítimas do alegado assassino é um guarda-republicano, é fácil de perceber que a situação é propícia a alguma disputa entre as forças no terreno, que podem mesmo causar alguns atritos.
Felizmente, parece ser mais isto que sucede do que uma descoordenação entre os agentes envolvidos, que poderia ainda fazer perigar a outra missão que não podem esquecer: garantir a segurança das populações.
Não quer isto dizer que um caso como este não exponha falhas num sistema de segurança que continua a ter dificuldades em articular as suas forças e, muito especialmente, em comunicar. Se é desejável que haja alguém que no terreno faça, no topo da pirâmide, a articulação entre as forças policiais e atenue algum atrito, é incompreensível que, ao fim de 11 dias, ninguém assuma a comunicação com a população.
A falta de informação conduz a disparates como aqueles que já davam Pedro Dias em fuga por Salamanca, mas, muito mais do que isso, deixam espaço para que se instale o medo entre quem desconhece que esforços estão a ser feitos em prol da segurança de todos. Em outros países, numa situação como esta, há briefings diários que servem para dar informações, mas principalmente para sossegar as populações. Em Portugal, há silêncio, o que normalmente produz ruído.
David Pontes in "Jornal de Notícias" - 21/10/2016
Cartoon de Henrique Monteiro in http://henricartoon.blogs.sapo.pt