5.10.16

OPINIÃO: O bom nome da ONU

Vamos perceber melhor o que se joga no palco nas nações. Se o que está em causa na escolha do secretário-geral das Nações Unidas é o perfil e as qualidades do candidato, ou os acordos políticos, nos bastidores, entre os mais poderosos, os que efetivamente mandam no Mundo. É um ato importante, depois da ONU anunciar maior transparência no processo de escolha, inaugurando uma série de entrevistas públicas a anteceder a decisão da Assembleia Geral e do Conselho.
Aparentemente, tudo podia ser claro se estivesse a correr conforme os grandes interesses internacionais. Pelos vistos, não estava. Um candidato português, até há pouco tempo comissário das Nações Unidos para os Refugiados, a cada entrevista feita publicamente, em prol da transparência, marcava pontos. Sem qualquer pudor, um novo concorrente entra quando o jogo vai a meio, e com o resultado praticamente definido. E tudo se complica para o antigo primeiro-ministro português António Guterres e, também, para o bom nome da ONU.
A Bulgária, que tinha apresentado a presidente da UNESCO, Irina Bokova, como candidata, lançou agora Kristalina Georgieva, com o apoio da Alemanha. Ontem, a mulher que na Comissão Europeia tratava do orçamento e dos recursos humanos, apresentou-se pela primeira vez perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Dando nota da fragilidade da sua candidatura, disse ter preferido apresentar-se mais cedo, mas garantiu fazer do financiamento da ONU a sua grande batalha.
Avança com o apoio dos donos da Europa. Resta saber se alcança o apoio dos donos do Mundo. Se as regras aparentemente mudaram, na essência tudo permanece na mesma. No final, decidem os que sempre decidiram: Rússia, Estados Unidos, França, China e Reino Unido, membros permanentes do Conselho de Segurança.
O que eventualmente nunca saberemos é se quem lançou esta candidata, já nos descontos da partida, fez o jogo de bastidores necessário para levar o projeto a bom porto. Nesta fase, as qualidades e o trabalho dos candidatos pouco interessam. Estamos no campo da política pura e dura, com tudo o que ela tem de opacidade. Se Georgieva ganhar, não é Guterres que perde: são as Nações Unidas. As qualidades da candidata, perante este triste espetáculo, não estão em causa - é o modus operandi, completamente inadequado, para um organismo que se diz árbitro do Planeta.

 Paula Ferreira - "Jornal de Notícias" - 4/10/2016