21.10.16

OPINIÃO: Malabarismo no trapézio

O escritor Rui Zink sintetizou com particular brilhantismo o atual momento político: "Portugal 2016. A realidade mudou? Não, se calhar a realidade não mudou. Mas o discurso sobre a realidade mudou. Logo, a realidade mudou". O Orçamento do Estado de 2017 pode ter muito de sensorial, mas é, na substância, um documento realista. Porque, como dizem os brasileiros, "cai na real" das contas públicas.
É certo que o croupier distribuiu as cartas de trunfo com movimentos de braços mais largos, procurando atingir outros beneficiários, mas recorreu à mesma e estafada técnica que faz com que, ano após ano, Orçamento após Orçamento, a casa nunca saia prejudicada. No final, o Estado acaba mais gordo e a cobrar mais impostos. E esse é o vício estrutural de que nenhuma desintoxicação nos livra: resolvemos a falta de crescimento económico inundando a economia de taxas e taxinhas. Porque continuamos a gastar mais do que produzimos.
Interessa pouco saber se este Orçamento é de Esquerda, Direita, Centro ou assim-assim. Essa é a mistificação de que se alimenta o tal "discurso sobre a realidade" de que fala Zink. Este continua a ser o Orçamento do "qual é a parte do não há dinheiro que não perceberam?" Mário Centeno jura que é de Esquerda apenas para agradar aos parceiros de Governo que não querem estar no Governo, dado que já nem ele deve acreditar nisso; os tais parceiros, como ontem fez neste jornal a deputada do BE Mariana Mortágua, garantem que o Orçamento não é de Esquerda, mas lembram que se não fosse por eles nem essa esforçada marca ideológica se notaria. Não foi por acaso que Catarina Martins deu os parabéns ao PSD pelo Orçamento do Governo PS. Um mal menor não deixa de ser um mal.
Quanto a António Costa, é o malabarista que ginga no trapézio, que caminha, desalinhado, sobre o fio bambo, acenando com a mão esquerda a PS, PCP e BE e com a mão direita a Bruxelas. Quem, há uns anos, afirmasse que comunistas e bloquistas aceitariam sufragar uma estratégia que se verga às imposições do tratado orçamental, condicionando quase tudo o resto, seria, no mínimo, desacreditado com veemência. Costa também é mágico.
Devolver rendimentos (ainda que de uma forma chico-esperta, como no caso da sobretaxa do IRS), aumentar as reformas (ainda que deixando de fora as realmente baixas e excluindo, por via da abolição da contribuição extraordinária de solidariedade, as pensões milionárias), reforçar o abono de família e o apoio aos deficientes são opções que procuram introduzir justiça social. Reconhecido esse mérito, que não é de somenos, tudo o resto é discurso. A realidade não mudou. Continua a alimentar-se do dinheiro que entregamos ao Estado. Esteja ele nas balas ou na Coca-Cola.
Pedro Ivo de Carvalho - in "Jornal de Notícias"