19.8.16

OPINIÃO: O menino do gueto de Alepo

Olhamos para Omran e vemos toda a tragédia. O menino de cinco anos, olhar imóvel, resgatado dos escombros da sua casa em Alepo, sentado no banco cor de laranja de uma ambulância, fez mais pela denúncia das atrocidades do que todos os comunicados a veicular informação, contrainformação e propaganda. Não importa saber a identidade das bombas que caíram sobre a casa de Omran, onde provavelmente estaria a dormir. Não há inocentes nesta guerra, embora as primeiras notícias deem sinais de que o menino possa ter sido vítima de uma ofensiva governamental, apoiada pela aviação russa. A Síria está dividida entre os rebeldes e o regime de Bashar al-Assad, que governa o país há anos com mão de ferro.
Omran Daqneesh vive no bairro de Qaterji, controlado pelos rebeldes que combatem o regime de al-Assad. Uns e outros lutam deixando para trás a população civil - à beira da fome, sem hospitais, luz ou água potável. A foto de Omran, sentado na ambulância, sozinho, coberto de pó e sangue, desorientado, não precisa do enquadramento de prédios em ruínas para se transformar na imagem-símbolo da cidade-mártir de Alepo. Nessa metrópole, de acordo com a ONU, dois milhões de pessoas encontram-se em perigo, sitiadas, sem acesso a ajuda humanitária. Omran, o menino sozinho, que não grita, nem verte uma lágrima - em choque, como descreveu o médico que o tratou -, deverá ter o mérito de alertar consciências. Na guerra da Síria, repito, não há inocentes entre as partes envolvidas: alastra desde 2011, fez já mais de 290 mil mortos. Metade da população síria viu-se obrigada a fugir do país, engrossando as colunas de refugiados, em desespero, à procura de paz em algum ponto da Europa.
Precisamente no dia em que Omran foi resgatado dos escombros de sua casa, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, denunciava mais uma vez que a população da Síria vive uma catástrofe humanitária sem precedentes. Omran foi resgatado vivo. Mas todos os dias, nos últimos cinco anos, dezenas de crianças morrem, ficam estropiadas, órfãs - e delas, graças à dramática banalização da guerra, não há notícia.
Um dia, o conflito terá o seu fim, nem que seja quando já nada restar. E dos escombros surgirão os horrores da guerra. E, mais uma vez, a humanidade perguntará: como foi possível?
Paula Ferreira in “Jornal de Notícias” – 19/8/2016