9.12.15

OPINIÃO - Nisa-Natal: Uma montra bordada de encantos

Nesta altura do ano, quando a noite chega acompanhada por um frio gélido que vem da serra, desnorteado, soprando agrestemente na nossa face, acendem-se milhares de pequenas luzinhas que embelezam e que fazem brilhar as ruas das nossas vidas, aquecendo a memória que guardamos num cantinho do nosso coração: a nossa terra.
Por aqui, quase todas as casas, baixinhas e caiadas de branco tinham uma larga e generosa lareira, feita com laje de xisto, à qual correspondia quase sempre uma chaminé da mesma dimensão. Durante muito tempo esta foi a divisão maior das nossas modestas casas, em que as famílias, depois de uma jornada longa na labuta agrícola, se refugiavam no calor que a lenha de azinho emanava para o fumeiro e ao mesmo tempo ia fazendo aquecer os lares, nas noites frias deste Alentejo profundo.
No silêncio da noite, as chaminés fumegavam lentamente, e nesta época, faziam-no de forma diferente, libertando um breve e suave aroma a fritos acabados de fazer, misturado com a lenha de azinho que ia ardendo na lareira. À volta do lume, duas ou três panelas de barro, que iam lentamente cozinhando qualquer coisa, e por cima do lume, umas trempes de ferro que suportavam um largo tacho com azeite, onde as filhoses, as azevias e as argolas ganhavam uma cor ligeiramente dourada.
Enquanto a mulher ia amassando num alguidar de barro, a massa dos fritos, o homem ia colocando lenha no lume, e os filhos olhando para o presépio, com o menino Jesus, Maria e José, esperando ansiosamente pela noite de 24 para 25 de Dezembro, altura em que arrumavam por baixo da larga chaminé, os seus sapatinhos, nos quais o menino Jesus iria colocar o embrulho com o presente de natal.
São apenas memórias, bem sei! E longe da euforia comercial do Natal, que marca os nossos tempos.
Poucas eram as lojas que tinham uma montra, na nossa terra. Mas, mesmo assim eram-mos felizes!
No entanto reconheço a importância de uma montra ou vitrina bem decorada e que exponha verdadeiramente o que é importante, os valores e as tradições representados em diversos artigos finais prontos a adquirir. Por isso mesmo Nisa está mais bonita, nesta quadra, com uma montra bordada de encantos, patente no edifício do posto de turismo, em que aliando a memória à criatividade, é digno de ser apreciado.
Parabéns a que teve a ideia, e a concebeu com tal mestria.
Nisa é Natal. Boas Festas!
JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO