25.11.15

OPINIÃO: Ora corte aqui, ora corte aqui no seu pezinho!

Lemos e não queremos acreditar. As palavras são de um especialista e foram proferidas no II Simpósio Ibérico de Diabetes, realizado no passado fim-de-semana em Arronches.
Disse o Dr. Pereira Albino, coordenador de cirurgia vascular do hospital dos Lusíadas, citado pela Rádio Portalegre, que “ a ausência de centros de cirurgia vascular justifica nível elevado de amputações”.
Assim mesmo, de forma clara e directa, sem falsos moralismos e sem iludir a questão.
“ No Alentejo e Algarve – prosseguiu o especialista, “não existem centros de cirurgia vascular, capazes de responder às complicações do pé diabético, o que faz com que estas regiões mantenham uma elevada prevalência de amputações”.
Não há centros especializados nem especialistas e então, como Lisboa, Coimbra e Porto - onde, supostamente, existirão pessoas e equipamentos especializados - ficam a milhares de quilómetros e pertencem a outro país,  é mais fácil e económico “cortar o dedinho, o pezinho, a perninha” ou seja, condenar a pessoa algarvia ou alentejana, a uma vida ou o que dela resta, de sofrimento e dependência.
A situação descrita pelo dr. Pereira Albino nem sequer é nova ou recente. Há muito que tal acontece, sem que as entidades que tutelam a saúde na região, os políticos regionais e os autarcas, tenham esboçado alguma forma de denúncia e protesto, perante tão dramática, revoltante e discriminatória situação, exigindo soluções e um tratamento igual ao das outras regiões e cidadãos do país.
Há meios e “plano de contingência” para fazer face às esperadas vagas de frio no distrito, um dos mais envelhecidos do país e da Europa. Mas não há, desde há muitos anos e na mesma ordem de razões, a atenção devida e humanamente exigível aos cidadãos que aqui vivem e sofrem problemas de saúde do foro diabético.
Até quando os responsáveis regionais da saúde e na política, os autarcas e deputados (que dizem defender a qualidade de vida das populações) vão permanecer mudos e quedos perante uma situação tão escandalosa e discriminatória?
Ou será mais fácil, continuarem a assobiar para o lado a popular melodia “ora (ponha) corte aqui, ora (ponha) corte aqui o seu pezinho; ora (ponha) corte aqui ao pé do meu”?
Mário Mendes