6.1.14

OPINIÃO: Recalibrar Portugal

Ano Dois mil e catorze, ano internacional da agricultura familiar, num país a onde pouco mais de 10% da população vive do sector primário, com muitas famílias a terem que voltar a cuidar da terra, como forma de subsistência, a viver do que ela dá (sem mais recursos), nestes tempos de crise. É o regresso a um passado – não muito distante - de fome e de miséria. A um Portugal esquecido por muitos, e escondido nas memórias dos mais velhos, que entretanto vão partindo.
Nas grandes cidades, onde outrora havia industria, comercio e serviços públicos, enfim, atividade económica e vida social intensa, passou a haver medo, tensão e desesperança.
Com o passar do tempo, na contagem sempre precisa do relógio governamental (Portas & Cª), somos diariamente bombardeados por palavras ocas, dum executivo neoliberal (PSD/CDS), que se serve de uma linguagem pouco comum em democracia, a qual contem certas terminologias, conceitos e números, que nos afogam na realidade. Como se os mesmo fossem retirados a papel químico do livro “1984” de George Orwell, onde se mostra a estreita conexão entre liberdade e linguagem, tomando esta ultima a forma de opressão política, essencialmente com o termo designado por Orwell de novilíngua  (newspeak), em que as palavras servem como engodo para a falsificação da verdade.
O último caso em Portugal, reporta ao início deste ano (dia 2 de Janeiro 2014), na conferência de imprensa do Conselho de Ministros, em que o porta-voz, o ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, aludindo às novas “medidas transitórias” e de “recalibragem” do sistema de pensões e à solução “duradoura” do aumento dos descontos para a ADSE. Já para não falar da forma grosseira, como o Primeiro-Ministro Passos Coelho tratou os dados estatísticos na sua comunicação de boas festas.
Mas, o uso e abuso deste género de linguagem comunicacional, tem-se generalizado e parece estar a fazer “escola” no país dos “entroikados”, por parte do poder instituído. São exemplos bem claros, um conjunto de palavras da “novilíngua” introduzidas na agenda mediática, nesta legislatura, que retratam essa realidade:
-“Ajustamento”= corte;
-“Poupança”= Não pagamento;
-“Requalificação”= despedimento s/ justificação na função pública;
-“Colaborador”= funcionário/Operário
-“Reforma do Estado”= Despedimento coletivo no Estado;
-“Medidas temporárias”= medidas definitivas;
-“Recalibragem”= alargar “a base de incidência para números aceitáveis”.
Esta forma de comunicar, perigosa em democracia, expressa um certo cuidado com manipulação do conteúdo do valor das palavras no discurso mediático, querendo por essa via, os seus “executantes” tomar um lugar dominante no pensamento coletivo, impondo designações restritivas na opinião pública.
E, como em comunicação nada pode ser deixado ao acaso, está a nascer um novo jornal diário (online- “O Observador”), com ligações diretas à ala ultradireita do PSD, que terá certamente como função replicar esse modelo, construindo a sua própria narrativa.
E, não esquecendo o lema do livro “1984” - "guerra é paz, escravidão é liberdade, ignorância é força" . Agora, mais do nunca, é importante olhar para lá da imagem, e decifrar a verdadeira força das palavras que circula nas entrelinhas da mensagem politica, e que nos passa despercebida diariamente.
José Leandro Lopes Semedo
Cartoon de Hermínio Felizardo in http://felizardocartoon.blogspot.pt