14.1.14

CRÓNICAS DE LISBOA: Eusébio e os Castigos dos Deuses

Obviamente que um país necessita de símbolos e ídolos, mas, infelizmente, é no desporto, em geral, e no futebol, em especial, que estes são mais globalizadores, porque, havendo-os também noutras áreas, é no desporto que eles alcançam uma maior notoriedade e universalidade, porque estas actividades são seguidas pelas grande massas humanas e muito heterogéneas. Alem disso, os medias dão maior projecção aos feitos atlético-desportivos desses ídolos e, infelizmente, alguns deles acabam por se revelarem  “ídolos com pés de barro”, mas são esses medias que acabam, muitas vezes, por “fabricar” também esses ídolos, em proveito e benefício próprio, porque são outros os interesses a sobreporem-se à ética, à verdade desportiva e ao “homem/mulher”.
O Portugal futebolístico, bem como o “mundo da bola”, acabam de ver partir um grande futebolista da sua época e que foi um ídolo para milhões de portugueses, e não só, nas décadas de sessenta e setenta. Graças a Eusébio e companhia, porque uma equipa de futebol é composta por muitos outros jogadores, no Benfica e na selecção nacional, o nome de Portugal galgou fronteiras, mesmo aquelas que, politicamente, estavam fechadas, por força do isolacionismo a que o nosso país tinha sido votado, devido ao regime ditatorial vigente à época. Futebolisticamente falando, Eusébio era um “monstro”, isto é, um jogador dotado de qualidades físico-atléticas próprias dum fora de série, e que tinha nascido, para o futebol, com a bola de trapos e cresceu no futebol de rua, como era habitual naquele tempo. As suas qualidades futebolísticas, permitiram-lhe alcandorar-se para a galeria dos craques do seu tempo, e eram muitos, embora o futebol dessa época fosse muito diferente daquele que hoje se joga, mas Eusébio destacava-se de todos os demais futebolistas. Era uma “máquina de fazer golos” e o terror dos defesas e dos guarda-redes das equipas adversárias, que o temiam. Aquela força da natureza e a sua técnica característica desequilibravam a balança, não só no futebol doméstico, a favor do Benfica que, com ele, ganhou onze campeonatos nacionais, falhando apenas para o Sporting os de 1962, 66, 70 e 74. Vi, com tristeza clubística, os muitos golos que Eusébio marcou ao meu Sporting e retenho, na retina e na memória, um enorme duelo que ele travou, no estádio de Alvalade, com um outro ídolo e que, na minha opinião, foi o melhor guarda-redes português que até hoje vi actuar. 
Foi épico, na óptica futebolística, esse  jogo entre o Sporting vs Benfica que, de facto, mais pareceu um duelo entre Victor Damas e Eusébio. Contudo e apesar do meu sportinguismo, habituei-me a considerar Eusébio, mais velho do que eu oito anos e mais um dia, como um “português de bandeira” e a agradecer-lhe tudo o que ele fez por Portugal, bem como outros ídolos o fizeram e fazem.
Na hora da morte, costumam chover os elogios e os agradecimentos àqueles que partem, mas muitos desses gestos e atitudes vêm daqueles que o deveriam ter feito em vida dos que partem. É um defeito dos homens e a Eusébio também foram cometidas algumas injustiças, por parte do seu clube. Lembram-se que Eusébio acabou a sua carreira, “arrastando as botas” pelos USA, Canadá, México e por clubes de menor dimensão, porque no seu clube já não havia lugar para velhos e, ainda por cima, cheio de mazelas adquiridas ou agravadas ao serviço e em benefícios directos do Benfica. Mais tarde, os dirigentes do clube e da FPF, deram a mão a Eusébio, para desempenhar a função de embaixador daquelas duas entidades e, embora à distância e porque padeço da mesma patologia que o afectava (doença do foro cardíaco), pareceu-me que Eusébio foi “explorado” nessa função, pois o seu estado de saúde desaconselhava certas viagens e eventos.
No dia da sua morte e nos dias subsequentes, não foi só a comunicação social que se aproveitou desse nefasto acontecimento, mas também todo o tipo de “figurantes”, incluindo actuais e ex-políticos e governantes do nosso país. É, de facto, uma perda, mas o país não parou e, infelizmente, muitas outras perdas, materiais e humanas, ocorreram por aqueles dias. Por exemplo, no dia anterior, foram muitos os cidadãos que, afectados pelos temporais, sofreram enormes perdas materiais e psicológicas mas aí e apesar das coberturas dos medias os políticos e os governantes não compareceram. Até o presidente duma autarquia (Paredes), na qual duas aldeias foram muito afectadas por um tufão, se fez representar por uma vereadora! No dia seguinte ao funeral e querendo aludir à chuva copiosa que caiu todo o dia do enterro, um jornal desportivo titulava, na primeira página: “ E o céu chorou, no adeus ao rei”. Mas, nesse dia de Reis, com cujo funeral quiseram fazer coincidir, a nossa orla marítima estava a ser fustigada por ondas gigantes, deixando, atrás de si, um rasto de destruição de enormes prejuízos para os afectados, mas também para o nosso país. Era  o castigo da natureza, porque: “A natureza não se queixa dos erros dos humanos. Vinga-se”!
“O futebol é apenas a coisa mais importante das coisas menos importantes”, mas, infelizmente e num país com enormes défices de outros valores, incluindo as lideranças políticas, empresariais, sociais, etc, o futebol e tudo a ele ligado, adquirem uma relevância desmesurada e Eusébio, na sua simplicidade e se fosse vivo, reprovaria estas atitudes, porque é nos dramas, mesmo que seja a morte dum simples operário da empresa, que se vêem os grandes líderes e o seu humanismo. Ai a falta que eles fazem a este país, embora seja o mesmo povo que reprova estas falhas e omissões que alimenta o “mundo das coisas menos importantes”.
Parece que até Eusébio ajudou Cristiano Ronaldo a ganhar mais um prestigiado troféu pessoal - melhor jogador do Mundo em 2013 -, pelo que lá em cima, o “King” sentirá orgulho neste “novo Eusébio”, que, também ele, tem feito “flutuar no mundo da bola” o nome de Portugal e duma forma que vai surpreendendo os mais eruditos, dando mostras de que não é só bom “com a bola nos pés”. Mas, por cá, muitas são as dores, provocadas pelos temporais e ainda por sarar, mas que as “festas da bola”, mesmo que sejam, predominantemente, à custa de jogadores estrangeiros, nos fazem esquecer ?
Serafim Marques - Economista