22.12.13

OPINIÃO: Natal(idade) em Nisa


De madrugada, antes do sol raiar, espreitando pela janela, vejo o manto branco da geada que cobre os campos da vila, cheira a azinho, que se consome lentamente nas lareiras das casas, fazendo fumegar algumas chaminés, e no ar ainda se sentem os aromas intensos de alguns ingredientes usados, durante a noite da consoada, na confeção das filhoses, das rabanadas, dos sonhos ou das azevias.
Aqui nesta terra, na minha terra natal, cheira e sentem-se os valores desta quadra. E as memórias regressam sempre às origens neste tempo de família e de união, que é o natal.
E sabendo, que o natal não é quando um homem quiser, mas quando as campanhas publicitárias decidirem, que devemos refletir nos propósitos desta época de consumo desenfreado e, por vezes paranóico. Por isso, o artigo de opinião desta semana, vai para uma ideia e uns números que não me largam há uns dias, e que me fizeram refletir, neste tempo em que celebramos o nascimento de Jesus, que é a força da natalidade. 
Na semana passada, o Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgou o Anuário Estatístico da Região Alentejo 2012, revelando nas suas 511 páginas, dados sobre o território, as pessoas, a atividade económica e o Estado, que expressam tão cruelmente a realidade deste interior esquecido pela centralidade das políticas elaboradas no Palácio de São Bento.
No que respeita aos dados da população, referentes ao concelho de Nisa, verificamos que, continuamos a caminhar na estrada do envelhecimento populacional, apresentado um índice de envelhecimento de 364,2 (dos mais elevados, a nível nacional). Nos últimos três anos (2010/2011/2012), nasceram no concelho de Nisa, um total de 107 indivíduos, 52 do sexo masculino e 55 do sexo feminino, apresentado o ano de 2012 o mais baixo número de nascimentos (apenas 22 indivíduos – 10 do sexo masculino e 12 do sexo feminino). Mas, como um mal não vem só,  esse envelhecimento da população é representado de forma clara, pelas suas altas taxas brutas de mortalidade, com 513 óbitos, nos três anos em análise, um saldo bastante negativo. É como se desaparecesse uma aldeia – de dimensão média, em cada três anos, neste concelho.
Mas, outros dados são nos revelados neste anuário de 2012, como o caso da diminuição dos casamentos no concelho de Nisa– em 2010 (18 casamentos), 2011 (11 casamentos) e 2012 (10 casamentos), reforçando-se, no entanto, a proporção de casamentos católicos, atingindo os 80%, em 2012. O que vem comprovar a veia tradicionalista e conservadora desta região.
Num outro registo, também ele muito importante, e que nos ajuda a compreender os movimentos populacionais no concelho de Nisa, é o aumento em 121%, nestes três anos, da população estrangeira com estatuto legal de residente, passando de 78 indivíduos em 2010, para 95 indivíduos em 2012. Comprovando-se aqui, a existência de um o fator de atratividade bastante alto nesta região, que consegue cativar indivíduos vindos do exterior para o seio da sua comunidade, tornando-a mais multicultural. No entanto, verifica-se uma nova realidade neste território, que deixa de ser um local só de partida (emigrantes), mas agora, também já é um local de chegada (imigrantes), e isto, pode ser visto, certamente, como um sinal positivo.
Á luz destes dados, devemos pensar em soluções, que possam dinamizar e alterar estes indicadores, criando politicas de incentivos à natalidade e de apoio ás famílias e, a par do que melhor se vai fazendo neste campo, em vários municípios. Um exemplo deste género de políticas positivas, podemos incluir a recente distribuição gratuita de manuais escolares aos alunos do 1º ciclo, pela autarquia de Nisa, como uma boa prática, a que se devem juntar outras de idêntico valor estratégico no plano da natalidade.
Por isso, nesta data tão simbólica e nestes tempos tão difíceis, felicito os pais corajosos dos 22 bebés que nasceram em Nisa, sem incentivos, durante o ano de 2012. Porque viver o natal é viver a vida, dando e recebendo em toda a sua plenitude, celebrando o presente da vida através do futuro nascimento. 
Cesso este meu artigo de opinião, o último deste ano, endereçando a todos os leitores e amigos, felicitações de um santo natal e um próspero ano novo de 2014.
JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO