10.10.11

CINE TEATRO DE NISA – 80 ANOS

A Idade Maior do bairrismo nisense
Inaugurado há 80 anos, nos dias 9 e 10 de Outubro de 1931 (Feira de S. Miguel), o Cine Teatro de Nisa representou a concretização de um sonho colectivo e a demonstração do maior amor à sua terra, a que deram forma vários nisenses, através da então constituída Empresa do Teatro Nisense.
Entre tantos que disponibilizaram dinheiro e boa vontade, dois homens temos, forçosamente, de destacar: Manuel Granchinho e José Vieira Esteves da Fonseca. Um e outro pela generosidade das suas contribuições monetárias e empenhamento pessoal, o último, também, como gestor da obra no terreno e, posteriormente, como administrador da empresa.
Do que representou e continua a representar para Nisa, esta sala de espectáculos, hoje em dia uma das melhores do distrito por força da grande transformação e recuperação que sofreu nos anos 80 e 90 e que lhe travaram o estado de ruína e a progressiva degradação, obra realizada pela Câmara Municipal de Nisa, atestam-no, quer o gosto dos nisenses desde épocas remotas pelo teatro e as representações cénicas, quer a própria frequência aos espectáculos cinematográficos, desde os anos 30 do século passado.
Neste trabalho evocativo dos 80 anos da construção do novo teatro – houve outro, mais antigo, que ruiu em 1916, como se mostra noutro local – pretendemos assinalar a data, lembrar os obreiros desta grande obra, feita e mantida por particulares, a “sociedade civil” da época e abrir as portas e janelas para uma reflexão sobre o que pode a força criadora dos homens, quando animada e orientada num sentido mais nobre, nesta caso, a construção de um equipamento cultural que, mesmo na sua inauguração, foi considerado um dos melhores e mais espaçosos na época, a nível do interior.
Este sentimento nobre, este despontar de um forte bairrismo, alicerçado no amor à terra e à cultura, fez nascer, outra vez, o nosso Teatro. E, lembramos, uma vez mais, que em Nisa, desde o século XVIII, o teatro sempre fez parte das manifestações artísticas dos nisenses.
O nascimento de um sonho
Os dados que seguem foram retirados do Relatório e Contas (Exercício de 1930/1946) da Empresa do Teatro Nisense Lda, livros que foram criteriosamente elaborados por José Vieira da Fonseca.
“ Em fins do ano de 1929, teve-se conhecimento em Nisa que ia ser arrematado em hasta pública, no tribunal desta comarca o velho Teatro Nisense (1), cuja reconstrução em 1918-1919 ficara em meio.
Vindo a Nisa por essa ocasião Manuel Granchinho e encontrando-se com José Vieira da Fonseca, acordam em fundar uma sociedade com o fim de arrematar a construção do dito Teatro.”
Manuel Granchinho não residia em Nisa e foi necessário convidar outras pessoas para a direcção da futura sociedade, passando esta a integrar José Augusto Fraústo Basso e António Paralta.
Em 8 de Fevereiro de 1930 é constituída uma sociedade por quotas, designada Empresa do Teatro Nisense Lda, formada por 13 societários e com o capital inicial de 75 mil escudos (75 contos), não podendo a quota de cada sócio ser inferior a 5 contos.
O objectivo era arrematar o antigo Teatro Nisense e acabar a sua construção, ou então construir outro em local mais apropriado.
Assinaram, como societários, a escritura: José Augusto Fraústo Basso, António da Graça Paralta, José Vieira Esteves da Fonseca, Manuel Granchinho, Augusto Dinis Vieira, Alfredo Dinis Vieira, Carlos Bento Pestana, António Caldeira Tonilhas, Aníbal da Graça Vieira, João Emílio Figueiredo, Joaquim Tavares Machado, Albano Curado Biscaia e José da Cruz Nunes. Entraram Manuel Granchinho e José Vieira da Fonseca com a quota de 10 mil escudos, os restantes com 5 mil escudos, cada um, tendo sido nomeados directores e gerentes da empresa, os três primeiros.
Passados 5 dias foi o velho Teatro à praça com o preço de 14 mil escudos e em lances sucessivos – pois apareceu outro concorrente – elevou-se à quantia de 30 mil escudos.
Nesta altura a direcção da empresa abandonou a praça e o Teatro foi adjudicado ao outro concorrente.
Perante este percalço, a direcção pensou na construção, de raiz, no Rossio. Manuel Granchinho desde logo apoiou a ideia e deu a garantia de contribuir até 100 mil escudos para a edificação do teatro. José Vieira da Fonseca e Augusto Dinis Vieira duplicaram o valor da sua quota, procuraram-se mais sócios e passados alguns dias, em reunião de societários era apresentado o croquis da planta do novo teatro, com as ideias mais gerais.
Obra por administração directa
A planta depois de corrigida pela Inspecção-Geral dos Espectáculos veio aprovada em fins de Março.
Daqui em diante seguiu-se um autêntico corrupio. António Paralta e José Vieira da Fonseca contactaram o empreiteiro Joaquim barbudo (Castelo Branco) e receberam outras propostas, deliberando fazer a construção por administração directa e encarregando dos trabalhos o mestre d´obras António Farto, de Vale do Peso.
No terreno onde existira o antigo cemitério, começaram a surgir os caboucos e da área arrematada utilizaram-se 640 m2 para o edifício, sendo 16 metros de fachada principal e 40 metros de comprimento, ficando a pertencer à empresa, uma faixa de terreno de 2 metros de largura do lado norte e do lado sul outra de 7 metros e m toda a extensão do edifício.
O sonho da construção de um novo Teatro estava em marcha, imparável e a inauguração nos dias 9 e 10 de Outubro de 1931 foi um dos grandes acontecimentos da história de Nisa do século passado.
A inauguração solene, na véspera da Feira de S. Miguel, esteve a cargo da Companhia do Teatro Nacional Almeida Garret, de que faziam parte além dos seu directores Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, a actriz Palmira Bastos e o autor António Pinheiro.
Num dos intervalos do espectáculo, foi descerrada pela actriz Palmira Bastos, uma lápide de mármore a assinalar a inauguração no salão do Teatro.
O cinema mudo foi inaugurado a 3 de Novembro, devido a problemas com a instalação eléctrica. Em 18 de Janeiro de 1935 inaugurou-se o cinema sonoro, com o sistema Klangfilm-Tobis, tendo importado a sua compra e instalação em cerca de 20 mil escudos, verba que foi obtida por subscrição.
A actividade do Cine Teatro de Nisa manteve-se, ininterruptamente até finais dos anos 70, com sessões de cinema aos sábados, domingos e feriados, espectáculos teatrais, musicais e de revista, representações cénicas com actores locais, sessões de propaganda, enfim, tudo o que o espaço cénico comportava.
Degradação do edifício e obras de reabilitação
Depois as condições do edifício foram-se, progressivamente, deteriorando-se. A execução de obras e a remodelação da sala de espectáculos condizente com as novas realidade e condições de conforto e segurança foram sendo adiadas, ainda mais por que a maioria dos societários tinham falecido ou estavam ausentes de Nisa há longos anos.
Havia dúvidas quanto à titularidade do Cine Teatro, que entretanto, passara, para a propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Nisa.
Este aspecto viria a condicionar o arranque de obras para a reabilitação do edifício, que antes que a ruína lhe abreviasse o fim e lhe sucedesse o mesmo que ao antigo teatro, em 1916.
A Câmara de Nisa, presidida por José Manuel Basso tomou a decisão de avançar com as obras de recuperação e reabilitação do Cine Teatro. Foram negociações difíceis e complexas com a Misericórdia de Nisa, mas por fim sobressaiu o bom senso e as obras avançaram e com alguns percalços pelo caminho foram concluídas no final de 1996.
Custaram cerca de 175 mil contos, tendo em conta algumas obras de beneficiação que a autarquia executou no âmbito do protocolo com a Santa Casa.
Em Outubro de 1997, com o filme “O Vulcão” que teve estreia nacional em Lisboa, Porto e Nisa, o Cine Teatro era reinaugurado e reabilitada com honra e festa, a memória de Manuel Granchinho e de José Vieira da Fonseca, principais dinamizadores de um equipamento cultural que enobrece Nisa,
Nisa tem um Cine Teatro que é dos melhores do distrito, mas a que falta emprestar, a graciosidade, o saber e o dinamismo dos autores e actores locais, entre estes, em primeira instância, a própria Câmara Municipal.
É preciso recuperar o “espírito bairrista” que animou esta gesta de homens, eu deram asas ao sonho e promoveram, por si próprios, um dos mais arrojados empreendimentos da nossa vila.
Nesta “idade maior” do Cine Teatro de Nisa, recordamo-los como exemplo a seguir, ao mesmo tempo que evocamos outras personagens desta história com 80 anos.
(1) – Edifício que foi sede do Clube Nisense, Biblioteca Municipal e actualmente da Inijovem.
O Cine Teatro Recuperado
Após profundas obras de recuperação, o Cine Teatro de retomou a sua actividade em Outubro de 1997 e iniciou um novo ciclo de espectáculos. No âmbito da inauguração realizou-se um espectáculo com colectividades e grupos do concelho de Nisa e foram representadas peças integradas no Festival Internacional de Teatro de Portalegre.
Do edifício do Cine Teatro inaugurado em 1931, para além da memória dos seus momentos de glória, permaneceu a fachada inicial
Operou-se uma total remodelação dos espaços e equipamentos.
As instalações actuais do Cine Teatro compreendem uma Sala de Espectáculos para 394 espectadores, com condições de conforto, dotada de ar condicionado e de modernos equipamentos de projecção, iluminação e instalação sonora. Um amplo palco com torre de cenários, ecrã de cinema e fosso de orquestra torna a sala vocacionada para sessões de cinema, teatro, teatro musicado, dança, canto, concertos musicais, actos cívicos. Para além de instalações e serviços de apoio, como gabinetes de projecção e controle de luzes e som, bilheteiras, camarins, sanitários e arrecadações, o edifício tem como locais complementares: salas para de escola de música e canto, para actividades de iniciação e aprendizagem musical, ensaio de agrupamentos musicais, canto regional e canto coral; sala de escola de teatro e dança, teatro experimental, expressão corporal, sala de instrumentos musicais, sala de execução e depósito de cenografia e carpintaria de palco; vestíbulo com bufete / bar; gabinetes de apoio à gestão e administração.
80 ANOS DO CINE TEATRO DE NISA
Responsáveis municipais falam da obra
José Manuel Basso, ex-presidente da Câmara Municipal de Nisa na vereação que levou a cabo a compra, recuperação e transformação do Cine Teatro, lembra o processo e a importância desta infra-estrutura.
1 - O que significou para si, enquanto nisense e presidente da Câmara Municipal, a recuperação do Cine Teatro de Nisa?
“A recuperação do Cine-Teatro de Nisa foi considerada, pela administração municipal que iniciou funções em 1983,um dos grandes investimentos prioritários a concretizar na vila sede do concelho, a saber: abastecimento de água à vila, casa da cultura, termas, cinema, turismo no Tejo, piscinas, pavilhão desportivo, arranjo do Rossio.”
2 - Quais os custos efectivos da obra e o que levou a que as mesmas demorassem uma infinidade de tempo?
“ A animação e dinamização cultural lançadas em 1984 necessitavam (também) de espaços adequados, funcionais e acolhedores no usufruto por parte da população.
Para o cine-teatro, além da fruição cultural pelos munícipes locais, foi definida uma estratégia de utilização da sala e programação numa óptica sub-regional, aproveitando a inexistência, à época, de espaços culturais dignos desse nome nas capitais de distrito vizinhas (Castelo Branco e Portalegre).
Foi assim que se tentou desde início conjugar uma programação alternando o espectáculo popular (que não popularucho) com iniciativas de grande prestígio que atraíssem a Nisa espectadores de outros pontos do país, nomeadamente dos concelhos vizinhos. Dentro desta concepção, as acções de inauguração incluíram, ao mesmo tempo, uma estreia nacional de cinema (o filme O Vulcão) e a actuação da Sociedade Musical Nisense com todos os seus grupos, mas «animado» o serão pela presença de uma apresentadora da TV na altura «em alta» (Fátima Lopes, SIC). Ainda no período inicial de reactivação do cine-teatro como espaço plural de todas as artes, esteve presente Cesária Évora, num espectáculo que, nessa «tournée» da prestigiada cantora de Cabo Verde, além de Nisa, apenas aconteceu em Lisboa.
Na sala realizavam-se ainda os debates, encontros, conferências, etc. quando o número de participantes (muitas vezes) não cabia no auditório da casa da cultura.
Fazendo jus ao slogan, não adoptado por acaso, de «sala do Norte-Alentejano» captavam-se grupos para aqui realizar as suas iniciativas e, assim, animar a vida local.
Desde igrejas (todas as orientações religiosas) a grupos profissionais ou sectoriais, com uma política de tarifário protegido e outros apoios logísticos, a todos se tentava chamar, para aqui realizarem as mais variadas iniciativas, nelas participando muitas vezes centenas de pessoas.
A ultrapassagem do tempo previsto para a realização da obra deveu-se a dificuldades momentâneas da empresa construtora. Apesar de se tratar de firma (justamente) conceituada na região (sede em Abrantes) atravessou na altura problemas de organização que só a competência do, então, departamento de empreitadas da câmara permitiu ultrapassar a situação difícil e concluir os trabalhos.”
3 - Como vê o futuro do Cine Teatro de Nisa?
“ O futuro, com o uso nos termos inicialmente previstos para os equipamentos culturais e de desenvolvimento local, integrados em projecto global para o concelho, de momento paralisado em absoluto, com os espaços a degradarem-se, só terá solução no quadro de uma viragem radical na orientação da política municipal. Cada dia que passa, sem uma solução, na cultura e no desenvolvimento, perpetua-se a estagnação e hipoteca-se o futuro do concelho.”
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Manuel Bichardo, vereador com o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Nisa, acedeu responder a algumas questões que lhe colocámos sobre o Cine Teatro.
1 - O que representa para o Município de Nisa a administração de um edifício como o Cine Teatro?
“ Programar e coordenar iniciativas ligadas à difusão cultural; Assegurar a actividade e o funcionamento do equipamento cultural; Promover o registo de conteúdos e sua publicação no interesse do concelho e/ou regional; Programar e coordenar a celebração de efemérides e comemorações municipais; Estabelecer parcerias com associações e instituições culturais, na difusão da sua actividade.
Assegurar o desenvolvimento de actividades visando o enriquecimento cultural dos munícipes, na fidelização de públicos às artes de palco.
Programar e acompanhar actividades de apoio à população escolar.
Disponibilizar os equipamentos às instituições do concelho para a promoção de actividades lúdicas.”
2 - O que é que impede a tomada de posse efectiva (propriedade plena) do edifício por parte da Câmara Municipal de Nisa?
“ Esta pergunta carece de fundamento, pois não faz sentido nenhum colocar esta questão sendo público que o edifício do Cine-Teatro é património do Município de Nisa.”
3 - Quais os motivos que levaram a autarquia a deixar de programar sessões de cinema?
“ São motivos de ordem económica, que resultam do que em Orçamento Municipal foi aprovado pelo Executivo para o ano de 2011, cuja verba ali destinada à Aquisição dos respectivos filmes, já todos o sabíamos, iria ser manifestamente insuficiente, mas apesar disso prevaleceu a vontade da maioria.
Acresce ainda entendermos que esta resposta está incompleta, porquanto, os motivos aqui referidos nunca foram bem explicados por quem restringiu cegamente despesas em orçamento e agora se esconde na retaguarda do Executivo Municipal.”
4- Qual o futuro para o Cine Teatro de Nisa e que medidas prevê a Câmara tomar no sentido da revitalização do espaço e da programação cultural?
“ O futuro do Cine-Teatro de Nisa não está em causa, só poderá estar em causa se as medidas tomadas pela Administração Central assim o decidirem, contudo, neste caso entendemos que a população do Concelho de Nisa deverá pronunciar-se sobre a questão.”
NR – A pergunta que formulámos, ao contrário do que pensa vereador Bichardo, tem toda a razão de ser. Ainda há bem pouco, era a Câmara que subsidiava a Misericórdia de Nisa para que esta pudesse pagar o IMI respeitante ao edifício.
A situação ao que parece – a Câmara não é transparente nestas e noutras questões – estará já definitivamente resolvida. Ainda bem.
Mário Mendes in "Alto Alentejo - 5/10/2011